Monday, January 11, 2021
A química cerebral
A química cerebral e o seu funcionamento dinâmico determinam muito do que somos. A herança genética e o contexto familiar, social, económico e cultural, ajudam a formatar e até a automatizar certos mecanismos de segregação e interação dos produtos postos à disposição da química cerebral (orgânicos, hormonas e outros compostos - adrenalina, oxitocina, endorfinas várias) ou absorvidos do exterior (drogas, incluindo medicamentos e certos alimentos).
Pensamentos, emoções e crenças (no plano imaterial) e drogas – quer legais, como os medicamentos, a cafeína, a nicotina, o álcool, etc., quer ilegais, como o haxixe, a cocaína, a morfina e muitas outras e mesmo certos alimentos (no plano material) influenciam de forma decisiva o funcionamento da química cerebral. Esta, por sua vez comanda muito do funcionamento orgânico e comportamental do indivíduo.
Daí não deverem surpreender certas observações empíricas, como o poder da oração, a energia extra gerada pelo medo (com descargas imediatas e poderosas de adrenalina, preparando o indivíduo para lutar ou fugir), a capacidade de aliviar e mesmo curar certas maleitas, que ervas, e outros tratamentos naturais e mesmo rezas e benzeduras tradicionalmente conseguiam, sobretudo durante os muitos séculos que antecederam a medicina moderna (mas ainda com muitos adeptos).
Tal como é bem conhecido e usado por sistema como método de controle nas experiências médicas, o chamado efeito placebo: metade de um determinado grupo de doentes (ou não) é sujeito a tratamentos ou medicado com algo cujo efeito se pretende estudar e a outra metade com um produto inócuo (o placebo), para feitos de comparação. Acreditando ter tomado o produto em apreciação, pode uma parte dos utilizadores do placebo experimentar efeitos semelhantes aos da metade que usou o produto efetivo.
Na política, no desporto e em muitos outros domínios da vida, os pensamentos, as emoções e as crenças, criam as condições químicas no cérebro dos indivíduos, capazes de determinar muitas das suas condutas e até ódios de estimação.
Os próprios criminosos e mesmo os assassinos em série, por vezes são, sobretudo, comandados pela química cerebral – as poderosas doses de adrenalina e outros compostos, que o cérebro gera e a mente absorve (por ocasião da prática dos crimes) tornam-se verdadeiras drogas, poderosas e irresistíveis. E a sua falta reclama e repetição de atos idênticos, porventura cada vez mais ousados ou violentos (particularmente se os primeiros ficaram impunes).
Também no amor, nas suas múltiplas expressões (filial, maternal, fraternal, paixão amorosa, paixão sexual, amizade, etc.), desencadeia efeitos relevantes na dinâmica da química cerebral. Por vezes eles são muito poderosos, como a segregação de oxitocina, conhecida como a hormona do amor – pelos corpos das mães na presença ou proximidade dos seus bébés, ou entre os apaixonados, na presença um do outro.
A própria atração ou repulsa que os indivíduos exercem uns sobre os outros (tantas vezes sem saberem bem porquê) é me grande parte resuiltado da dinâmica da química cerebral, por influência privilegiada, a meu ver por dois fatores bastante subvalorizados – as informações sensoriais do olfato e do ouvido. Certos cheiros pessoais e mais ainda as vibrações particulares da voz de cada um, podem, nuns casos atrair, noutros causar afastamento ou mesmo repulsa.
De resto, todos os contributos diários que cada um dos sentidos nos dá, também contribuem para a dinâmica da química cerebral, dando-nos a cada instante, uma síntese do sentir, que identificamos como nosso e faz parte da nossa identidade, em permanente e subtil mutação.
(Acredito nisto, sem saber. Trata-se de mera intuição, assente em informação variada e experiência de vida, acumuladas na mente, ao longo dos anos).