Thursday, November 12, 2020

 

A simetria das meias-verdades

Funcionamos e orientamo-nos na vida, razoavelmente, ora acertando, ora errando, crentes em meias-verdades, que tomamos por verdades. 1. “Tudo vale a pena, se a alma não é pequena”. Eis um dos versos mais conhecidos de Fernando Pessoa. É uma meia-verdade inspiradora e otimista. 2. Mas o grande poeta, sendo também um filósofo, conhecia bem a imperfeição das meias-verdades, que só com o seu oposto ganham consistência. Por isso, também escreveu: “Fui tudo. Nada vale a pena”. 3. Ou “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”, verso otimista, carregado de esperança na harmonia íntima dos esforços dos homens com a vontade divina. 4. Mas o poeta não ignorou a meia-verdade oposta: “Dorme, que a vida é nada! Dorme, que tudo é vão!”. 5. Os orientais falam desde tempos imemoriais da energia vital, o Chi ou Ki, ou Prana, contendo duas forças opostas, sempre presentes (o Yin e o Yang). 6. O Ocidente foi descobrindo, primeiro com os sentidos, depois com a inteligência, ampliada pelas Ciências, cada mais, essa incindível presença dos opostos, por toda a Natureza (incluindo no corpo humano): dia/noite, positivo/negativo, quente/frio, fogo/gelo, luz/escuridão, masculino/feminino, o magnetismo e a eletricidade, com os seus polos opostos, etc. 7. No pensamento e ação política, identificam-se tendências: direita e esquerda, conservadores e progressistas, pros e contras, em quase todos os temas colocados à discussão. 8. Na reflexão filosófica e religiosa, o Bem e o Mal, o amor e o ódio, os defeitos e as qualidades, etc. 9. As meias-verdades são muito sedutoras, como a luz, que nos faz esquecer a existência primordial do seu oposto, a escuridão. Como a vida, que nos faz esquecer a omnipresença da morte. 10. Talvez valha a pena não nos contentarmos com as meias-verdades, buscando sem medos ou preconceitos, as meias-verdades opostas, numa admiravel simetria.

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