Friday, August 07, 2020
O quê?
Vivemos, de dia em dia, de mês em mês, de ano em ano, de idade em idade, em busca de quê? em direção a quê?
Mais novos, os objetivos traçados não são nossos. São da família e da sociedade. Querem-nos, obedientes, educados bonzinhos, estudiosos, respeitadores, cumpridores, disciplinados. E que passemos de ano, de preferência com boas notas e já agora no quadro de honra e sem faltas.
Mais tarde, somos nós (ou assim julgamos) a traçar objetivos: aceitação social (um curso, um bom emprego, uma carreira, mais rendimentos, uma nova família, casa, carros, viagens, etc.). E continuam a querer-nos obedientes, educados bonzinhos, estudiosos, respeitadores, cumpridores, disciplinados e ...contribuintes.
Pelo caminho, talvez surjam algumas inquietações espirituais (ou não). Afinal, tudo isso, se conseguido, chega? É mesmo esse o propósito da viagem extraordinária e única que nos foi entregue, para dela cuidarmos por algumas décadas?
As religiões e as várias propostas espirituais, desde o ioga até aos livors de auto-ajuda, têm muitas respostas. Mas nenhuma satisfaz completamente.
As inquietações da alma foram retratados com espacial nitidez pelos poetas. Mas, apesar do contributo inestimavel, a pergunta permanece sem resposta á altura. O quê? O que é que era verdadeiramente essencial que encontrássemos durante a viagem?
Durante milénios, os mais afoitos exploraram as profundezas da mente humana, provocando estados alterados de consciência, através da ingestão controlada de alucinogéneos. “Viram” e relataram coisas e feitos extraordinários, que a linguagem corrente mal chegava para descrever, mas foram guias para multidões de seguidores. Fundaram religiões, seitas, cultos e tradições. E um sem fim de criações concretas, na arquitetura – templos, igrejas, conventos, monumentos - e nas mais diversas artes – pintura, escultura, música, artes decorativas, artes cénicas.
Modernamente, sem a sabedoria e a prudência dos velhos sábios, o consumo de alucinogéneos, transformou-se num desastre de dimensões catastróficas (os consumos de drogas) e num negócio colossal (os seus múltiplos, violentos e lucrativos tráficos).
Deixou de ser veículo para busca do sagrado (e do sentido mais profundo da existência) pelos meandros geralmente inacessíveis da mente e passou a ser consumo descontrolado e destrutivo, na busca de emoções fortes e fuga da (aparente) banalidade da vida comum.
Os mais românticos acharam que o amor pudesse ser a salvação, o ingrediente (não tão secreto, já que vem desde há muito sendo apontado por poetas, filósofos e sonhadores) que daria finalmente sentido último à viagem (“levarás apenas o amor que deres e receberes”).
Mas não é ainda essa a chave que abre o segredo, a mão que afasta o véu do realidade, para revelar os seus segredos mais íntimos.
Sendo as paixões amorosas poderosas variantes dos estados alterados de consciência, capazes de gerar comportamentos extremos de aparente irracionalidade, a sua duração limitada, cedo revela que não era ainda esse o código de acesso capaz de revelar o sentido da vida.
E o amor ao próximo, tão louvado pela generalidade das religiões? É uma proposta bonita e um bom conselho. Mas os humanos concretos são como são. Bastante impermeáveis aos bons conselhos (mais permeáveis, infelizmente, aos maus). Poucos terão a alma suficientemente grande para acolher os outros, de coração aberto e sem discriminações. Mesmo os melhores de todos, os santos, ao longo das suas vidas foram muitas vezes capazes de praticar ações de que até o comum dos mortais se envergonharia.
Criar filhos, deixar continuadores, parece ser, para muitos, finalmente, o sentido último da vida. Mas, entra-se num círculo vicioso: criar filhos, para que criem filhos, para que criem filhos, para que criem filhos... É bonito, tem utilidade, sobretudo do ponto de vista da continuação da espécie. Mas não parece ser a resposta à questão.
Por causa da nossa velha história da luta pela sobrevivência, um desafio bem antigo mas sempre atual, desenvolvemos com sucesso inúmeras estratégias. Um traço muito comum foi o gosto pela acumulação. Acumulamos bens materiais, fortuna (se pudermos), livros (se amantes da leitura e dos livros), gorduras (pela generalizada sobrealimentação nos países onde os alimentos estão mais acessíveis às massas), etc. De resto, vivemos num mundo de sobre-estímulos sensoriais, que levam a excitação superficial e ao entorpecimento dos níveis mais profundos do ser.
Mas, tudo o que tivermos acumulado (e tanto conforto, material e espiritual nos vai dando) teremos necessariamente de PERDER. Quanto mais tivermos, mais perderemos (porque tudo perderemos, incluindo os que mais amamos). Acumular parece de pouca valia e representa uma sobrecarga, uma bagagem pesada, para carregar na viagem. Melhor não.
Há também quem busque na acumulação de experiências sexuais intensas o modo predileto de preenchimento prazeroso das suas vidas. Sendo o sexo uma poderosa necessidade da nossa natureza animal, é também uma fonte de prazer, mas não creio que possa acrescentar muito em termos de progresso espiritual. Talvez até ocorra o contrario. É só uma hipótese, não tenho experiência suficiente para avaliar.
Se todas as propostas e todas as seduções falharem (e falharão), sendo as mais em voga (pelo menos até à atual pandemia de covid-19) viajar e acumular experiências sensoriais – lugares, comidas, climas, paisagens, ambientes, pessoas, jogos, filmes, músicas, competições várias - e usar com sofreguidão o entorpecente da moda, os artefactos tecnológicos, a questão de fundo continua intocada: o que é AQUILO que viémos em busca e que não deve escapar-nos, sob pena de termos falhado o essencial?
Ainda não sei. Não sei se outros saberão. Mas só confio na minha própria experiência: as experiências alheias são, para mim, meras histórias. Pouco ou nada contam.
A minha busca, talvez inglória, continua (enquanto a minha consciência me guiar).
Entretanto, regresso por vezes a Caeiro:
“A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Basta existir para se ser completo”.
(Porém, existir NÃO BASTA...).