Friday, February 21, 2020
Autogestão
Gerir o corpo é
melhorar os seus modos de uso. Um processo conducente a uma maior
consciência (em vez de automatismos) de como nos movemos, como são
as nossas posturas corporais, da quantidade e qualidade do sono que
lhe permitimos, como alternamos movimento e ação com repouso e
quietude, que alimentos ingerimos para permitir adequada nutrição,
sem grande comprometimento da saúde, evitando excessos.
Gerir melhor a mente é
perceber que ela é um extraordinário instrumento de adaptação à
vida e aos múltiplos contextos e desafios que nos vão sendo
apresentados. Mas perceber também que ela tem limites, que usa
sobretudo conhecimento acumulado, por vezes insuficiente ou
inapropriado para as novas situações. E que, apesar de poder
projetar o futuro, antecipando cenários para fazer escolhas no
presente, muitas vezes nos sobrecarrega com medos e ansiedadees
desnecessárias, geradas pela sua própria dinâmica interna, sem
suporte real. A mente deve ser gerida de forma a ser usada para nos
ajudar. Mas quando gera negatividades (medos e inseguranças, por
cenários hipotéticos), devemos saber relativizar, mudar o seu
padrão de funcionamento por forma a desviar o foco desses mecanismos
de desgaste inútil de energias.
Gerir melhor as emoções
é mais difícil. Elas parecem surgir de um modo incontrolável e
dominam-nos de formas aparentemente irresistíveis. Frequentemente, é
a relação ou a interação com os outros que gera as reações
emocionais, positivas ou negativas com que temos de lidar. E não
fomos treinados para isso. Mesmo assim, vale a pena aprender a gerir
as nossas emoções. As que nos causam satisfação não são
problemáticas, mas mesmo assim devemos temperar o entusiasmo.
Excessos não são boa “política” em matéria alguma. As emoções
negativas são muito mais difíceis de gerir. Não adianta mudar de
cenário, que elas vão connosco. Se percebemos que são o stress dos
outros, os medos e proconceitos dos outros e as suas atitudes que nos
provocam a reação emocional negativa, devemos entender que estamos
a dar-lhes demasiado poder sobre o nosso “ambiente emocional”. E
isso é algo que nos pertence e somos nós que ditamos como ele deve
ser e evoluir. Usar de gentileza, respeito e franqueza
(salvaguardando a nossa identidade e privacidade) geralmente ajuda a
desanuviar ambientes menos confortáveis e a reduzir a
conflitualidade, aberta ou latente, entre as pessoas. O uso moderado
do humor é uma das melhores armas para desarmar as atitudes mais
reservadas ou desconfiadas dos outros em relação a nós. Saber
ouvir é também um trunfo as relações interpessoais. Ter paz
interior e exportar um pouco dela para os outros, em vez de importar
a turbulência alheia é uma maneira de atenuar negatividades e
amenizar as relações humanas.
Estamos culturalmente
formatados para usar a estranheza com estranhos (e tantas vezes o seu
reverso, a familiaridade excessiva com os conhecidos). Devíamos
treinar-nos a usar a familiaridade (moderada) também com estranhos.
Creio que isso promove um bom clima emocional em ambos os lados, para
benefício comum.
Finalmente aprender a
gerir melhor a energia vital. Temo-la, desde antes do nascimento e
vai connosco enquanto vivermos. Mas não sabemos lidar com ela. De
resto, ela não é nossa. Ela é a energia universal, de múltiplas e
infinitas manifestações, que em nós assume e se exprime, em cada
tempo, de diversas formas. Trata-se de um fluxo variável, mas que
podemos incrementar, se sentirmos que é algo grande e poderoso, de
inteligência incorporada, que existe em toda a parte e assume em nós
uma presença e uma passagem com uma expressão única, mas tanto
mais poderosa quanto mais se alimentar da inesgotável e límpida
fonte. Identificar-se, harmonizar-se com essa fonte, deixar fluir em
nós essa energia inteligente, é dar-lhe a oportunidade de se
fortalecer e de nos fortalecer.