Sunday, January 19, 2020
Mudança e permanência
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Luís de Camões
Tendo vivido
já por quase seis décadas, é fácil olhar para trás e observar a
verdade expressa nos versos do poeta: a mudança é uma
constante da vida, nas vidas e no mundo.
Mas, também podemos
observar que, pelo menos nas nossas breves vidas, existiram e
persistem algumas constantes, alguns pontos fixos. Por exemplo,
pontos fixos externos, o céu, o sol, a lua, o mar, a terra, o ar, a
água, a natureza, a interação com outros humanos e animais. Pontos fixos
internos, a respiração e a importação de dados do exterior,
processada sob a forma de pensamentos, sensações e emoções.
E podemos observar que
nós mesmo, mudando sempre, permanecemos os mesmos, no
essencial, como que sobrepondo às antigas versões de nós que já
fomos, novas versões que vamos sendo, na relação ininterrupta com
o mundo, os outros e connosco mesmos. As várias camadas sobrepõem-se
mas não apagam ou anulam as anteriores, apenas acrescentam.
E aqueles que ao longo
da vida nos marcaram de forma indelével fazem parte desse património
que permanece e vai connosco. Os que amámos continuam a ser “pontos
fixos internos”, quer ainda estejam vivos quer não.