Wednesday, September 11, 2019
O sonho do meu pai
O meu pai cresceu e viveu
num tempo de condições de vida duras e exigentes. Tendo um filho
único, que mostrava ser bom aluno e bom rapazinho, esteve sempre
disposto a ajudar-me (tal como a minha mãe) para que eu pudesse
prosseguir estudos, até onde nos fosse possível. Tudo correu bem e
lá veio o dipoma de Direito, aos 23 anos. O conselho: “estuda que
é para um dia seres alguém” foi seguido à risca.
Depois veio a vida, os
trambolhões, os erros e os acertos. O tempo e as circunstâncias lá
foram forçando a minha preguiça de lutar para “ser alguém”.
Sendo um preguiçoso nato, “ser ninguém” para mim chegava bem.
A minha preguiça de
resto resultava e resulta de perceber bem a futilidade de todo o
esforço humano em perseguir sempre este e aquele propósito ou
objetivos a que chamam sonhos, planos ou auto-realização. Eu, pelo
contrário, nunca tive sonhos meus, só queria continuar vivo e sem
sofrimentos de maior. Claro que desejava amar e ser amado, como toda
a gente, mas achava que para isso não precisava de “ser (outro)
alguém”, bastava ser quem já era.
Ter formação superior e
ter vindo a ser advogado foi o resultado do sonho do meu pai, não um
sonho meu. Mas fico grato pelo “empurrão”. Valeu o esforço e o
caminho percorrido, tanto que vim até aqui e gosto de aqui estar.
Mas, para mim, continuo a
ser “ninguém” e isso basta-me. Para os outros serei o que
imaginarem e isso vai fora de mim e de tal não me ocupo. Quem gostar
gostou, quem não gostar dançou.