Thursday, June 13, 2019

 

O medo, culpa e repressão sexual.



As armas mais antigas de controlo social e ainda as mais comuns atualmente: o medo, a culpa e a repressão sexual.


Aos miudos dizia-se antigamente “se não te portas bem, vou chamar o velho do saco” ou outras ameaças equivalentes.


E pela vida fora, tanto a família, como a escola, a igreja e as pessoas em geral, adotam correntemente formas diversas de amedrontar os mais fracos ou temerosos, para assim os condicionar. O condicionamento existe para benefício do condicionador e prejuízo do condicionado. Mas as formas muitas vezes subtis de amedrontar nem chegam a ser percebidas.

 
Modernamente, as formas mais comuns de amedrontar as pessoas ocorrem através da comunicação social. A divulgação minuciosa de perigos, crimes, catástrofes e acidentes, instala-se na mente dos destinatários como um alerta, reforçado de forma quase diária, para os perigos a que cada um se expõe pelo simples facto de existir.

Esse medo, instilado em doses moderadas mas repetidas, modela e limita quem o sofre, de forma inconsciente. E faz mal à saúde. Ninguém pode viver harmoniosamente em alerta quase permanente (mesmo as pequenas doses diárias de rubricas que exibem doenças e sintomas de problemas de saúde mais não são que injeções de medo disfarçadas).

 
Outro inimigo da saúde mental é a culpa. Sempre que algo desagradável acontece, existe a tendência natural para encontrar culpados. Muitas vezes acham-se depressa demais e a forma excessiva com que se descarrega no “culpado” representa quase sempre uma injustiça. Muitos factos indesejaveis acontecem acidentalmenre, por descuido ou distração desculpavel. Mas a falta de empatia com o “culpado” e a tal necessidade (e até algum prazer sádico) em descarregar em alguém o peso das coisas más, leva-nos a ser facilmente desumanos com o próximo.

Não assumir a culpa é algo comum nos humanos. Descarregar as culpas noutros é quase tão comum. Nos tribunais, é mais frequente o réu não assumir a culpa do que fazê-lo. Chega a culpar a própria vítima pelas consequências das suas ações.

Nas relações pessoais, particularmente dentro da família e no trabalho, o passa-culpas é a moeda forte. Há sempre alguém para culpar, nem que seja o gato (na família) ou a empregada de limpeza (no meio laboral).
 
Em vez do medo e da culpa como fatores de modelação permanente das mentes, eu gostaria de ver a alegria, como estado desejável. Para isso, deveríamos treinar-nos de forma persistente uns aos outros e cada um a si mesmo, por todos os meios que a imaginação puder, a ser alegres. Pessoas em quem a alegria interior está presente não precisam nem gostam de maltratar o próximo. A conflitualidade entre pessoas diminuiria drasticamente. No limite, as próprias guerras seriam impossíveis, pois pessoas felizes se recusariam a ir combater os supostos inimigos (reconhecendo que são afinal seus iguais e igualmente vítimas de manipulação por parte de figurões psicopatas para quem a vida alheia pouco ou nada vale comparada com os seus interesses egoístas).

E apesar das dificuldades e problemas que todos sempre terão de enfrentar na vida (uns mais outros menos) a verdade é que existe uma razão fortíssima para estarmos gratos e alegres: continuamos vivos e continuam vivos quase todos os nossos ente-queridos. Em cada dia, isso é um milagre incalculável.

A repressão da sexualidade foi sempre uma arma privilegiada de controlo social. Desde as formas mais rudes como a mutilação genital masculina e feminina, até às ameaças dos fogos dos infernos, às penas pesadíssimas para os desobedientes nesta matéria, até às modernas formas de crítica de costumes, com consequências mais atenuadas mas sempre presentes no espírito dos indivíduos.
Durante milénios as ameaças de vários infernos (no além) e castigos severos (no aquém), até mesmo pena de morte para os infratores das regras de "bom comportamento sexual" devem ter deixado marcas muito profundas na psique humana.



 

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