Friday, July 03, 2015

 

O que somos




Cada um de nós foi construído a partir de cópias de páginas químicas (adn) provenientes de milhares de outras cópias de adn, numa sucessão ininterrupta desde o princípio da vida na Terra. As vidas que as cópias anteriores viveram (milhões de anos de vidas animais e posteriormente humanas) deixaram marcas ou traços, que se combinaram com os traços antigos, em vigor desde os tempos primordiais.



Herdamos tudo isso, numa mistura única. Uma composição nova, com letras antiquíssimas, com memórias inscritas de inúmeras vidas, animais e humanas, metade delas femininas, outra metade masculinas.



Temos recursos virtualmente infinitos, porque os nossos genes são cópias fiéis de genes que já viveram quase tudo – nascimentos, dores, tragédias, lutas, doenças, amores e desamores, trabalhos duros e serões amenos, amizades e ódios de estimação.



As novas tecnologias e meios de comunicação e a difusão generalizada do saber mantiveram intocado o essencial do que somos – animais domésticos capazes de regressar facilmente ao estado de fera temível (crimes horrendos são o dia dia mundo fora, como desde Abel e Caim).

Fomos feras animalescas durante muitíssimo mais tempo do que somos humanos (feras mais perigosas, porque sabem o que fazem).



Da morte nada sabem os genes (a não ser da morte alheia). Muitas das nossas cópias de adn sabem o que é matar. Mas nenhuma sabe o que é morrer. Pois apesar de todas terem chegado a ter essa última experiência, já não puderam passar adiante esse conhecimento.



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