Thursday, May 08, 2014
Feliz sem fé
Não sou crente. Respeito as crenças alheias e a sua fé religiosa. Procuro evitar a exibição da minha atitude de não crença, não por qualquer calculismo, mas porque é assunto do foro íntimo e ninguém tem nada com isso.
Não me incomodando por aí além, se por facilidade de ocasião calhar a assistir a uma missa, não gosto mas não me importo.
Dispenso-me de imitar os gestos e as rezas dos crentes, porque isso seria hipocrisia. Mas assisto sem problemas.
O que não sei e é muito não me atemoriza nem me incomoda.
Por isso não tenho a necessidade de preencher lacunas com crenças ou fé religiosa.
Basta-me a consciência de que o que sei é pouco e o que ignoro é
muito. E aceito bem isso.Há partes do mistério da vida que não conheço nem posso conhecer.
Assim foi determinado por circunstâncias exteriores a mim e eu aceito.
Não me dá qualquer inquietação.
Trazemos inscrito no instinto de sobrevivência medos que, sendo
comuns, podemos, se quisermos, domesticar e tornar inofensivos ou superados.
O medo da morte e do sofrimento são os maiores. A eles respondem as crenças e as religiões e isso está bem para quem permaneça preso a temores primitivos. Assim, pode atenuar os seus efeitos negativos.
No meu caso, fui-os superando. Gosto demais da vida mas não temo a minha morte. Sei que jamais a encontrarei. Quando ela estiver presente, eu não estarei.
A morte alheia é um facto triste, mas superável. O sofrimento dos
entes queridos dói também em nós.Mas são tudo factos da vida. E vivendo, aceitamo-la em bloco
com tudo o contem e vamos descobrindo. Descobrimo-nos também a nós.
Sobre a vida após a morte nada sei a não ser que por agora nada posso saber. Isto basta-me.
Foi mais difícil de aceitar e permanece incompreensível a
necessidade do sofrimento, quer humano quer animal, sobretudo osofrimento imerecido.
Do sofrimento, posso dizer com certeza que é sempre transitório.
Por muito grande que seja tem um fim.
Se for insuportável, sobrevem a morte, que liberta.Ninguém gosta de sofrer (à excepção dos masoquistas e mesmo a
esses nem todo o sofrimento agradará). Muito menos eu, que sou feliz e amo a vida.
Mas, depois de já ter conhecido algum sofrimento, físico e emocional, temo-o hoje muito menos que noutras idades temi.
Usufruamos do privilégio de viver, em toda a multiplicidade, enquanto nos for dado. Se nos couber alguma tristeza, vivâmo-la e sigamos em frente.
A vida, como a água, não gosta de paragens prolongadas. Estagna, cheira mal e torna-se perigosa.
Aceitemos a morte e o sofrimento que nos calhar e não conseguirmos evitar e portemo-nos à altura.
A vida é muito bela, mesmo perigosa, sofrida e com final indesejado.
Sei que permanecem inúmeros medos menores: medo de empobrecer, medo de ser rejeitado, mal amado, mal falado, mal julgado. Medo de ser feio, de ser gordo, medo de não saber quando era suposto saber, etc.
Além de, já no domínio do patológico, as inúmeras fobias (do escuro, de multidões, de ficar sozinho, de ficar fechado, de cães, de ser perseguido, de ser roubado ou enganado, etc.)
As fobias tratáveis, devem ser tratadas. Os medos menores, devem ser domesticados a ponto de não gerar infelicidades duradouras. A vida, além de bela é curta. Não vale a pena perder tempo com negatividades.