Friday, May 16, 2014
O fluxo invertido
A energia
vital, vitalidade, flui em nós, como nos animais, de forma constante
e poderosa. Observem-se os animais em liberdade, em harmonia com o
seu ambiente natural e a energia que parecem esbanjar é enorme, como
se estivessem imbuídos de uma forte alegria de viver.
Também as
crianças pequenas exibem uma energia quase inesgotável (só o sono
os desliga) mudando de objeto da sua atenção inúmeras vezes, mas
mantendo essa vitalidade transbordante.
Nesses
seres a energia vital flui de forma natural: sentir – pensar (no
caso dos humanos) – agir.
A educação
e o controle social vai desde muito cedo e de forma persistente ao
longo da vida mudando o curso do fluxo vital (educar
é podar).
Passam a
funcionar em fluxo invertido: pensar – agir – sentir.
Acontece
que pensar é usar ferramentas mentais incutidas pela sociedade no
indivíduo e essa tralha ideológica, tantas vezes absurda, constitui
uma floresta de enganos.
O que
pensamos é o resultado do processamento individual de uma infinidade
de conceitos e preconceitos. Só nos pertence em pequena medida.
Quase tudo nos foi incutido.
Já o que
sentimos é genuinamente nosso e renova-se constantemente como a água
que brota da fonte.
E se o
que pensamos nem é nosso e pode estar errado (tantas vezes está) o
que sentimos está sempre certo, mesmo que nos leve a cometer erros.
Esses erros são nossos
e nós gostamos naturalmente de tudo o que é nosso.
Com o fluxo
vital invertido, seguindo o pensar e não o sentir, a maioria dos
humanos vive vidas infelizes, emocionalmente pobres e mentalmente
perturbadas. A sua energia vital é baixa. Tentam compensar isso com
estímulos do exterior: comida (obesidade), compras (o comércio vive
prospera com essa sede insaciável) novas experiências de vida
(viagens, festas, encontros) ou sensoriais repetidas ou viciantes
(sexo, álcool, drogas – tabaco incluído) que os façam sentir
vivos.
Tudo é
na verdade inútil para devolver a harmonia e bem estar perdidos na
infância, quando a energia fluia naturalmente.
Por mais
compras que faça e experiências que viva, nada lhe pode dar o que
perdeu.
Consegue
apenas alegrias breves, que logo que se apagam os deixam ainda mais
abatidos e a precisar de novos estímulos. Um ciclo de sofrimento,
mais ou menos consciente que no limite pode levar ao suicídio,
embora geralmente apenas produza seres tristes (basta
observar a cara que fica quando tiram as máscaras sociais que usam
para sobreviver) apáticos e temerosos. Quase
inaptos para se relacionar emocionalmente com os outros. Porque se o
fluxo vital nos liga (a tudo e a todos) o sua falta bloqueia a nossa
capacidade de interação verdadeira e de fruição da vida.
Daí a
nostalgia da infância e o amor aos animais. Sentem que é por ali,
algures (infância e
vida natural) que ficou enterrado um tesouro incomparável.
Não
existe ser mais infeliz e medroso que o ser humano adulto. Somente os
animais em cativeiro mostram igualmente quebras visíveis da sua
energia vital (alguns chegam a morrer de tristeza). Merece simpatia e
compaixão.
Mas
merece também um conselho, que aqui dou de graça: A fonte
inesgotável de energia vital continua lá, soterrada pelo lixo que
nos impingem.
Para lhe
aceder temos de contornar a tralha. O nosso instinto, se o seguirmos,
acerta o rumo. É para cada um o melhor que pode fazer a si mesmo –
recuperar a sua fonte de energia vital permitindo que flua
naturalmente: sentir – pensar – agir.
Deixar
de buscar fora o que existe dentro e é a sua única verdadeira
riqueza.