Thursday, May 10, 2012

 

O meu pardalito

Lá pelos meus onze anos, o meu pai deixou-me pegar na espingardinha de pressão de ar que havia lá por casa. Comecei a ir por aqui e por ali, sob as árvores, a tentar acertar nalgum passarito incauto. Mais para afinar a pontaria e poder orgulhar-me de ser talvez bom atirador. Durante algum tempo acertei ao lado e a passarada começou a evitar o meu quintal. Um belo dia acertei num pardalito descuidado que ficara a ver as vistas no alto da minha oliveira grande. Caíu, ferido de morte. Peguei-lhe, aconcheguei-o na mão e desejei muito que não morresse. Mas em breves instantes a sua pequena vida apagou-se. Chorei por ele. Pareceu-me totalmente absurdo ter roubado aquela vida, afinal para nada. Cavei um buraco no quintal, embrulhei-o num pedaço de tecido e enterrei-o. Nunca disse a ninguém. Nunca mais atirei em nenhum ser vivo. Ainda hoje, sei onde fica o “lugar do passarito”, sob o chão do casão. Passaram quarenta anos.

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