Monday, May 02, 2011

 

O menino Nicolau

Era uma vez um menino chamado Nicolau. Era gordinho e muito simpático.
Por razões que não entendeu muito bem, a família enviou-o para casa de uns tios da província, para completar a escola primária. Corria o ano de 1970. Ano da morte de Salazar.
A escola, novinha, inaugurada em Janeiro, era muito bonita, com duas salas – a da esquerda para as meninas e a da direita, para os meninos. Em cada sala, uma fila de mesas e cadeiras para cada classe.
Cumprindo uma tradição, dura e assustadora, a professora frequentemente chamava ao quadro um ou vários alunos, para acertar contas com os erros de cada um. A pena era invariavelmente uma sequência de reguadas valentes em cada mão, alternadamente.
De regresso à mesa, a fresca bata branca, obrigatória na época, era o único refúgio para as mãos vermelhas, quentes e doloridas.
Todos sabiam o que custava aquele tormento.
Mas o menino Nicolau, que vinha de fora e era tão simpático, tinha uma vantagem, supunham os colegas da aldeia: era parente da professora.
Acontece que foi ele, o mais bem colocado para escapar aos castigos, o mais castigado daquele ano.
De nada lhe valeram nem o parentesco nem a simpatia. As mãozitas do Nicolau conheceram, melhor do que ninguém, aquela maldita régua de madeira.
Sim, amigo Nicolau, quarenta anos depois, as nossas mãos ainda se lembram muito bem.

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