Friday, February 18, 2011

 

Miopia

Sendo míope, aos seis anos passei a usar óculos. Habituei-me de tal maneira que quase deixei de senti-los como o estorvo que realmente são.
Brinquei bastante, corri, briguei, aprendi a nadar e a andar de bicicleta, fiz a escola, amigos, tudo sem que os óculos me impedissem. Exceto jogar futebol. Aí, as minhas tentativas, com algumas quedas, comigo para um lado e os óculos para o outro, depressa me afastaram do jogo. Como não podia divertir-me jogando, o futebol perdeu para mim todo o interesse muito cedo. Nem escolhi clube favorito e, adulto, mudo rapidamente de canal se dá futebol ou conversa sobre ele na tv.

Lá pelos dezasseis a coisa piorou um bocado com as idas à praia. Adorava o mar, nadava muito divertido, mas assustava-me um bocadito, ao sair da água, não saber para que lado ficavam os pertences. “Via” muitos toldos, toalhas e vultos, mas estava praticamente perdido sem os óculos.

Mas o pior de tudo foram os bailes de província.
Eram muito animados e toda a gente se divertia, crianças, velhos e sobretudo a malta nova, em idade de namoriscar.
Os meus amigos e os desconhecidos que por ali apareciam trocavam olhares com as moças, começando pelas mais belas e cedo arranjavam par, ficando por ali a rodopiar tempo sem fim.
Já o míope, às vezes com as lentes meio embaciadas pelo bafo do recinto fechado, não conseguia distinguir ao longe a expressão das moças e era impossível estabelecer essa comunicação sem palavras mas tão eficaz (para os outros). Temendo a rejeição mas armado de uma coragem nascida da vergonha de sobrar sempre e da vontade de ter uma das moças junto a mim, lá ousava ir buscar uma. Quando aceitavam, tentava dançar e até gostava bastante dessa proximidade, tão sugestiva de intimidade e afecto.

Mas a miopia fez-me sempre sentir em desvantagem perante os que viam bem (quase todos). Daí uma certa timidez, que me levou até aos 22 anos, virgem e sem namoro.

Depois tudo seguiu o curso de uma vida normal. Quase esqueci a fantasia imensa de um dia ver bem. Ter por algum tempo, antes da morte, a experiência, para mim incomparável (para os outros banal) de ver este magnífico mundo com olhos normais.

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