Saturday, October 02, 2010
O Touro
Esta noite tive um sonho intenso de que lembro a parte mais marcante: Estava eu numa fila, lado a lado com mais uns seis ou sete homens, encostados a uma parede rochosa, a pique. Eu era o da ponta; todos os outros se encontravam à minha direita. Diante de nós uma arena e solto nela um touro bravo, preto, enorme. Não nos movíamos ou por medo ou por não ter para onde fugir. De longe olhou-nos e aproximou-se veloz. Pensei que ia acometer contra alguns de nós. Percebi que era a mim que se dirigia. Virei-me de lado, estendi um braço, consegui atingir com a mão uma pedra saliente na parede natural e erguer o corpo, fixando com dificuldade ora um pé ora outro, ora uma mão ora outra. Alcei-me uns dois metros acima do solo. O touro ergueu-se sobre as patas traseiras fixou as dianteiras na parede natural, junto a mim. Aproximou de mim a enorme cabeça. Com a mão esquerda livre e não conseguindo subir mais, estendia-a devagar e, sem medo fiz-lhe festas na cabeça como se fosse um pachorrento labrador, oferecendo-lhe amizade. E surpreendi-me com o efeito extraordinário: o enorme touro aceitou as festas e gostou. Aquele concentrado de ferocidade, que podia matar-me num ápice, também apreciava ser tratado com meiguice e amabilidade.
Desta vez não morri, nem no sonho.
De acordo com leituras antigas sobre interpretação dos sonhos, o touro representa a morte. Este meu encontro onírico com a representação da morte pode ter muitas interpretações. Prefiro esta: Mesmo a morte, quando inevitavelmente vier, deve, apesar do medo, ser recebida com amabilidade. Como uma página do livro da vida que tememos, por ter escrita a palavra Fim mas que virá porque tem de vir e deve ser recebida com a mesma atitude que se teve perante todas as outras páginas da vida.