Tuesday, June 15, 2010

 

O futuro certo de Portugal

Vive-se o fim da primeira década do século 21. Uma década que começou com o atentado de Nova Iorque e terminou com uma crise financeira e económica à escala mundial, iniciada também em Nova Iorque.

Um pequeno país como Portugal, de escassos recursos naturais e um povo mal habituado em termos de valores, comportamentos e hábitos, vê-se nesta fase a braços com uma crise que é dupla: a que resulta do impacto interno da crise mundial e a que é endógena e sempre cá morou, fruto (amargo) de um modo de vida parolo e bronco.

Vemos e veremos ainda mais, a pobreza a alastrar a estratos populacionais antes defendidos aparentemente desses males.
Vemos um país superendividado, que não encontra caminhos para se equilibrar que não sejam os mais mesquinhos: aumentando impostos; apertando o cinto aos que menos podem; retirando ou diminuindo regalias sociais, extinguindo serviços de utilidade geral, acessíveis mesmo aos mais carenciados.

Portugal não soube crescer de forma sustentada e sólida. Cresceu nos padrões de consumo e nas obras faraónicas, a poder de subsídios europeus e de dinheiro emprestado pelo exterior. Entretanto:
Deixou a agricultura e as pescas ao abandono. Deixou ao abandono a generalidade dos sectores económicos produtivos. Expandiu, de forma megalómana as redes de distribuição de bens comprados a preços baixos no exterior, com dinheiro emprestado.

Um modelo económico destes, assente num consumo de bens importados com dinheiro emprestado, tinha tudo para se afundar. E vamos afundar mesmo.
Não estamos sós, mas com a desgraça alheia podemos bem.
Veremos coisas que há poucos anos pareceriam impossíveis: o Estado a reduzir salários e pensões. A reduzir (ainda mais) e a eliminar benefícios sociais essenciais à sobrevivência e segurança de vastas camadas da população. A retirar-se da saúde e da educação. A atrasar pagamentos a fornecedores, por falta de verba. A aumentar (ainda mais) os impostos.

A procura de um equilíbrio frágil que permita continuar a caminhar entre as nações civilizadas vai continuar, mas o caminho vai ser mais pedregoso, mais duro e quem tiver de o fazer tem de estar preparado para mudar de hábitos e aprender novas estratégias de sobrevivência num mundo socialmente hostil.
Ter estudos superiores vai ser muito mais difícil e caro. Além de inútil. Os empregos serão sempre muito menos do que os candidatos, em todas as áreas, à excepção talvez da medicina.
Justiça e forças de segurança serão cada vez mais impotentes para reparar os rasgões que a vigarice a criminalidade vão infligindo no tecido social.

O futuro de Portugal não é incerto. Está à vista: desastre e pobreza generalizada a níveis muito piores do que as gerações anteriores experimentaram. Emigração em níveis crescentes será, mais uma vez, a única válvula de escape. Fugir daqui, já que não se consegue cá viver, decentemente.

Existiu a esperança num país mais desenvolvido e mais justo. Mais civilizado. A par dos melhores para viver, não pela abundância, que não temos, mas pela qualidade de vida pautada pelo respeito pelos valores essenciais, pela dignidade da pessoa humana, onde os requisitos básicos para uma vida decente estivessem preenchidos para todos os portugueses, como obrigação fundamental do Estado. Essa esperança foi-se. Não só não se cumpriu, como chegámos aqui, à antecâmara do seu oposto.

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