Friday, June 25, 2010

 

Agressividade, dominância e submissão



Entre os mamíferos da mesma espécie estabelecem-se naturalmente hierarquias. Em cada relacionamento cada um estabelece instintivamente a sua posição (no caso dos humanos a avaliação instintiva é complementada pela avaliação cultural) e cada um classifica o outro – acima, abaixo, ou ao mesmo nível.
Pode haver choques e agressividade, simulada ou efectiva, entre avaliações que gerem antagonismo. Entre fêmeas ou entre machos da mesma espécie os níveis de agressividade sobem mais fácil e frequentemente (é comum ver cão brigar com cão, cadela com cadela; mas não cão com cadela).

Agressividade, dominância e submissão estão também fortemente implicadas no relacionamente entre os sexos. Não só nos mamíferos. São frequentes comportamentos agressivos entre os sexos, antes, durante ou depois da cópula (as cadelas mordem os cães que tentam copular; os leões arranham com o membro espinhoso a vagina das leoas durante a cópula; os burros mordem no dorso das burras durante o acto; a louva-a-deus mata o macho durante ou após a cópula, comendo-o).

Entre os humanos, de formas temperadas pela cultura, todas aquelas energias fluem nos relacionamentos. Mesmo assim, os casos de explosões de agressividade entre parceiros sexuais não são raros (uma percentagem significativa de jovens admite que já apanhou tareia do namorado; a violência doméstica é cada vez mais visível e condenada pela sociedade e pela Justiça; todos os anos dezenas de mulheres são assassinadas pelos companheiros ou ex-companheiros, só em Portugal).

Na dinâmica do casal existe de uma certa forma uma alternância saudável de comportamentos de dominância e submissão, que permite a não-acumulação de agressividade (por vezes o homem domina e a mulher aceita e aprecia esse domínio; por vezes a mulher domina e o homem aceita e aprecia esse domínio).

Se o padrão de relacionamento não permitir essa saudável alternância, as relações geram desvios neuróticos em ambos: o que permanece dominante, com o tempo torna-se autoritário, tiranete, eventualmente violento, psicológica ou mesmo fisicamente. O que é sistematicamente submisso baixa a sua auto-estima para níveis doentiamente baixos, que impedem o exercício normal das suas potencialidades.

No limite estão os comportamentos sexuais sado-masoquistas (práticas ditas BDSM, de bondage, domination, sadism, masochism) onde se encenam comportamentos de dominância e submissão, incluindo humilhação, por vezes com risco para a saúde e mesmo para a vida do dominado.
Considerados comportamentos desviantes pelas ciências médicas, não deixaram de ter os seus adeptos ao longo da história (na literatura, com o Marquês de Sade, Sacher-Masoch e outros) e mesmo na actualidade.

Durante o crescimento os indivíduos são expostos à dinâmica das relações humanas, sobretudo na família, depois na escola e no meio social envolvente.
Directamente, sentem desde muito cedo o domínio que sobre ele exercem os maiores (pais, irmãos mais velhos, etc) e observam e intuem os desníveis de poder nas relações entre os humanos. Aprendem que a vontade de uns se sobrepõe muitas vezes à vontade de outro, de formas variadas que vão desde a sedução à atemorização, por vezes passando pela palmada.

Precisam de aprender e geralmente aprendem que a alternância (entre dominância e submissão à vontade do outro) como o meio saudável de esvaziar os níveis de agressividade.

Os que crescem sem ter aprendido esse mecanismo podem tornar-se pessoas demasiado dominantes ou demasiado submissas (com reflexos decisivos nos seus percursos de vida e relacionamentos)

As famílias disfuncionais, os relacionamentos amorosos doentios, os comportamentos violentos, os comportamentos sociais disfuncionais, são muitas vezes protagonizados por pessoas que assimilaram mal aquela aprendizagem, ou cresceram elas próprias num meio (sobretudo familiar) que já era ele próprio o exemplo errado dos mecanismos de gestão do poder pessoal.

Em resumo, cada um precisa de aprender a exercer o seu poder pessoal e a relacionar-se com o poder pessoal alheio, com a flexibilidade suficiente para por vezes dominar (não se deixar amachucar) outras vezes ceder gentilmente ao outro, consciente que ceder ainda é uma forma possível de gerir o seu próprio poder (pela abstenção).
Assim, podemos temperar (humanizar) esta área do nosso aparelho instintivo, a que os outros animais têm simplesmente de obedecer.

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