Friday, April 16, 2010

 

Sonho antigo

Um velho sonho esquecido no fundo de uma gaveta do ser


Desde muito miudo, a minha maneira de encarar a vida foi fortemente influenciada pela minha maneira de ver, em sentido estrito. Os meus olhos cedo se revelaram fortemente míopes. Entrei para a primária de óculos, era o único a usá-los em toda a primária e mesmo no secundário eram raros os miúdos com óculos.

A miopia não me impediu de fazer quase tudo o que os outros fazem (excepto a maioria dos desportos). Mas absorvi o mundo de uma forma particular, com um filtro deformante, perdendo por certo muita da sua beleza, que mesmo assim me parece extraordinária e inesgotável.

Por vezes ao longo da vida sonhava (acordado) a possibilidade de um dia ver bem – ter a experiência de ver o mundo como todos em geral o podem ver. Cheguei a usar lentes de contacto mas a memória que me ficou foi a das dores terríveis nos olhos por ocasião da rejeição delas.

Acabei atirando para o fundo de uma gaveta de mim esse sonho por parecer irrealizável e adaptei-me à ideia de que, tendo vivido e quase visto o mundo bem, viveria toda a vida no quase. E morreria sem saber.

O meu amigo oftalmologista ontem observou-me e as suas palavras acordaram esse velho sonho esquecido. Segundo ele a solução apropriada para o meu caso são as lentes intra-oculares de silicone, de que já ouvira falar mas imaginava algo assustador. Na posse de mais informação, a minha esperança de um dia poder ver bem ou pelo menos muito melhor, recomeça a mexer. Como as sementes, teimou em esperar o tempo tempo certo para crescer e quem sabe, com sorte, florir um dia.


Decidimos corrigir por ora miopia com novas lentes por mais um ano. Aí, vamos por certo avançar com o processo. Já estou a mentalizar-me que é possível e devo passar por aí.

Sentir esta esperança deu-me uma nova alegria ao presente – a esperança é sem dúvida um poderoso estimulante da vida humana.
A esperança de poder realizar um dos meus mais poderosos sonhos, tanto tempo esquecido, é uma fonte inesgotável de endorfinas e consequente bem-estar. Vou beber dessa fonte até um dia em que se tudo correr bem acederei a ver a vida bem. Se correr mal morrerei afogado no pesadelo de ficar pior do que estava. Mas quero tentar, com alegria, mesmo correndo o risco.

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