Friday, April 23, 2010

 

O último mergulho

Verão de 1973, Ribeira do Roxo, a sul de Jungeiros. Cinco da tarde. Três miudos, dois de treze anos e um de onze, nadavam pela última vez na ribeira, após uma tarde de brincadeiras na água, aproveitando o tempo quente e a alegria da idade.

Fernando, José Francisco e António Zé. Diferindo dos locais habituais dos banhos de verão, os canais de rega do perímetro de rega do Roxo, onde a água pouco mais atinge que as coxas, naquele dia, por sugestão do Fernando foram nadar para a ribeira. Ali não tinham pé, mas a
tranquilidade das águas paradas pelo paredão de uma pequena barragem e o uso de uma grande boia preta (câmara de ar), permitiram uma tarde animada. Até ali.
De repente o António Zé grita: - “ O Fernando afundou!!”e logo sai da água e corre nu pelos campos, em aflição.
Virando-se na água José Francisco vê ainda uma mão em abandono quase à superfície da água e nada dois metros até lá tacteando em busca do amigo. Em vão.
Logo chegam as mulheres (que andavam perto a trabalhar) e o choro aflito da mãe do Fernando.
Filho único, ali perdera a vida, por congestão e morte súbita.
É impossível imaginar a dor dos pais. Também a dor dos amigos.
José Francisco sonhava durante meses com o amigo e acreditava que afinal não tinha morrido (até acordar para a tristeza de sera apenas outro sonho).
De dia, muitas vezes julgava vê-lo pelas ruas da aldeia, sobretudo porque as suas roupas foram dadas a um menino da mesma idade que as usava muito.
E não sabia o que dizer ao Benfica, o cão fiel que andava sempre com o Fernando e ficou sem saber nada a não ser a falta dele.


A dor da mãe fê-la imaginar que o culpado da morte do filho fora o José Francisco. E deixou de lhe falar por muitos anos.
Mas os pais do Fernando eram ainda novos e logo quiseram mais filhos. Em breve nasciam o Paulo e a Lénia, hoje adultos, casados e com filhos.
Da dor da morte do Fernandinho soube a vida fazer florir outras vidas, que darão talvez origem a tantas outras.



Beja, 23-04-2010
José Francisco
(Esta semana encontrei casualmente uma moça, pequena e simpática, cujos traços fisionómicos me fizeram lembrar alguém... era a Lénia, a irmã Fernandinho. Beijei-a com alegria, mas sozinho, voltei a chorar, como sempre, pelo destino do meu querido amigo).

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