Wednesday, March 11, 2009

 

A lei do mais forte

Provem certamente da nossa natureza animal, dominadora ora visível ora oculta das nossas acções e motivações, o uso e abuso do poder do mais forte sobre o mais fraco e mais ainda se este não pode ripostar de todo. Já pertence ao lado humano, preferir que o abuso fique no anonimato, livre da reprovação alheia (aos animais, o uso da força sobre o mais fraco não os envergonha nem um pouco e querem lá saber da reprovação alheia).

Graças à mente, capaz de raciocinar, ainda que grosseiramente, os mais fortes exibem quase sempre pretextos para o uso e abuso da força sobre os mais fracos. Tentativas de justificação quase sempre falsas e por vezes ridículas. Porque, implicitamente, o ataque do mais forte sobre o mais fraco é um acto de cobardia, excepto se se tratar de um imperativo de sobrevivência do indivíduo ou dos seus próximos. E tanto mais cobarde e vil quanto maior for a desproporção de forças.

A história humana foi feita do uso e abuso da força por todos os que se encontravam ou se achavam em posição de força para roubar, destruir ou matar os que lhes pareciam a jeito e convinham. Raramente esses ataques constituiram imperativos de sobrevivência. Mas, se vitoriosos, transformaram, aos olhos dos seus, muitos assassinos em heróis.

Não há nisso novidade. É a extensão humana de uma lei da natureza, implacável e cega à consideração e respeito pelo outro se este se encontra à mercê (Simone Weil gostava de citar o exemplo das galinhas que, se virem outra galinha ferida aproveitam para lhe dar bicadas. Conheci este exemplo: Dois cãezitos eram vizinhos e amigos. Um dia, um deles, distraído a dormitar no meio da rua, foi atropelado pela roda de um carro, sem muita gravidade. Mas ficou queixoso e a coxear. O outro, de imediato, correu para ele e deu-lhe umas dentadas, aproveitando a ocasião de fragilidade do vizinho. Daí para diante adeus amizade...


O que torna ainda mais belo, de uma beleza quase sobrenatural, o gesto daquele que, podendo destruir o outro, o que está à sua total mercê sem hipótese de ripostar, e estando até garantida a impunidade da destruição, se abstém de matar e destruir. Reconhecendo e devolvendo humanidade ao mais fraco, em vez da morte, dá-lhe um abraço.

Mas como as leis da natureza são implacáveis (o raio, o sismo, o tsunami destroem tanto homens bons como os assassinos) não está livre aquele que usa de clemência e de humanidade de que, aproveitando o abraço, o mais fraco lhe espete uma faca no coração e o mate.


Ora, sendo certo que Deus pode a qualquer instante destruir-nos e apesar da infinita desproporção de forças se abstém de o fazer, como ignorar que a nossa vida deveria ser essencialmente gratidão por esse belo gesto continuado? Um gesto que só pode ser classificado como um gesto de amor.
A vida, com toda a sua beleza e mistério, deveria ser aproveitada para aprender a amar Deus, correspondendo assim ao seu amor por nós.

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