Monday, March 05, 2007
Faz-me impressão que...
1.Não haja um mercado de arrendamento decente. Onde fosse tão fácil, cómodo e económico arrendar casa como alugar um automóvel.
2.Que existam centenas de milhar de casas fechadas, roubadas da sua utilidade social. Umas, por estarem à venda sem compradores suficientes à altura dos seus preços exorbitantes, outras, velhas, por abandono de décadas de herdeiros desavindos.
3.Que existam milhares de pessoas a viver em prédios velhíssimos, sem condições de habitabilidade, conforto e dignidade.
4.Que existam por esse país fora imensas extensões de terra, vazias de gente, sem utilidade ou com uma utilidade marginal, onde centenas de milhar de famílias poderiam ter habitações decentes, rodeadas de espaço, natureza e animais (mas onde não é sequer legal construir) e a imensa maioria viva aglomerada em cidades desumanas, frias e poluídas.
5.Um casal jovem na idade de formar nova família, sem formação superior, terá muita sorte se conseguir arranjar um emprego precário para cada um, por 600 euros mensais, na mesma cidade. Mas como precisa de um lugar para viver, terá de comprar uma casa, por 150 mil euros, comprometendo-se com a banca a pagar muito mais de metade do rendimento líquido do casal por uns 40 anos. Se viverem e não perderem o emprego, ficarão escravos da banca para toda a sua vida activa. Mas a casa precisa de recheio, móveis, electrodomésticos, etc. (mais prestações?) e tem outros custos fixos, água, luz, gás, condomínio, Internet, telecomunicações, manutenção e reparações… E cada um vai precisar provavelmente de um carro para se deslocar para o trabalho (mais prestações, combustíveis caros, seguros, manutenção, reparações, etc.) E se vier um filho ou vários? Que custos (fraldas, médicos, amas, infantários, etc.?) E se um deles (ou ambos) ficar(em) doente? E se tiverem um acidente grave? E se o casamento acabar? Que má sorte!!
6.E se o casal tiver formação superior? Se tiver a improvável sorte de encontrar empregos à altura, na mesma cidade, as nuvens serão idênticas, mas em ponto ainda maior… a casa já será de 300 mil euros, os carros já serão de gama média/alta, etc.…mas a má sorte pode vir a ser igual, pois a incerteza é a grande paisagem de fundo onde estas vidas vulneráveis se desenrolam (despidas da protecção ancestral da família).
7.Ainda haja optimismo (inconsciência?) suficiente para continuar a trazer filhos ao mundo nestas condições tão adversas. O Estado ainda tem o desplante de aconselhar – ai a inversão da pirâmide etária! ai a quebra da natalidade! Tenham mais filhos, por favor! Para quê?
8.Sobram os sem sorte nenhuma, os que com ou sem formação superior, não conseguem sequer encontrar emprego decente. Os que têm formação superior tem uma superior frustração pois foram formatados com expectativas mais altas, impossíveis de satisfazer…
9.Que exista em Portugal meio milhão de desempregados, a maioria sem qualquer suporte financeiro público.
10.Que com tanto desemprego, se suba a idade legal de reforma e se dificultem as reformas antecipadas, dificultando a renovação de gerações no trabalho, prolongando o sofrimento de gerações que poderiam ir descansar ainda em condições de saúde razoáveis e prolongando a dependência e a frustração das gerações jovens que precisam ocupar lugares na vida activa, que teimam em não ser libertos.
11.Que milhões de pessoas tenham de sobreviver com pensões míseras.
12.Que existam milhares de crianças à espera de adopção e ainda mais famílias com vontade de adoptar crianças. E uma bur(r)ocracia lerda que as impede de se encaixarem em tempo útil.
13.Que não existam lares de terceira idade decentes em número suficiente para as necessidades da população.
14.Que não existam creches e jardins-de-infância decentes em número suficiente e ao alcance das possibilidades financeiras das famílias.
15.Que as mães não tenham tempo para acompanhar o crescimento dos seus filhos, sobretudo nos primeiros três anos de vida, tendo de entregá-los a outrem por vezes com poucos meses de vida.
16.Que as indemnizações por morte sejam ridiculamente baixas.
17.Que as indemnizações por ofensas à integridade física sejam ridiculamente baixas.
18.Que as penas dos agentes de tais ofensas (morte e ofensas à integridade física) sejam excessivamente baixas.
19.Que as pessoas tratem os outros com indiferença total ou com um arrogante olhar de cima para baixo.
20.Que se morra tanto nas estradas em resultado de acidentes tantas vezes devidos a causas evitáveis – excesso de velocidade e álcool.
21.Que as pessoas gastam somas elevadas na construção de jazigos, campas e quejandos, para resguardo de restos mortais e sejam tão avaros em facultar ajuda material aos vivos, sobretudo os mais carenciados, mesmo familiares próximos.
22.Que as pessoas fumem em lugares fechados, ofendendo a saúde e o bem-estar alheio (por vezes o egoísmo é tanto que nem notam…).
23.Que as cidade tenham tão poucas zonas verdes entretecidas na malha urbana, e tão poucas vias reservadas a peões.
24.Que, nas ruas, os passeios tenham dimensões ridículas e/ou piso empedrado extremamente desconfortável, sobretudo para deficientes, crianças, idosos, pessoas carregadas com as compras, senhoras de salto fino, etc. Tal piso desestimula toda a gente do saudável hábito de caminhar, com consequências negativas para a saúde, o ambiente e a qualidade de vida.
25.Que o Estado queira seguir as pisadas do sector privado. Dominados pela cultura da rentabilidade, ideologia central do capitalismo dominante, o Estado também busca vias para se livrar das imensas massas humanas não rentáveis, por idade, doença, deficiência, incultura. Despedir, privatizar, cobrar, fechar, reestruturar, agilizar, modernizar, são tudo variantes de excluir. Excluir, lançar borda fora da sociedade, da vida, da dinâmica do lucro, onde são peso morto esses milhões de inúteis.
26.Que o Estado gaste fortunas em despesas de saúde curativa (caríssima para as pessoas, duplamente, pois pagam também os impostos com que o Estado a co-financia, além de geradora de imenso sofrimento em boa parte evitável) e negligencia quase totalmente a saúde preventiva, onde deveria investir fortemente, para o bem-estar dos cidadãos e para a saúde das contas públicas.
27.Que a Justiça seja tão cara, morosa e complexa, não conseguindo responder em tempo útil necessidades das pessoas.
28.Que o sistema escolar seja sobretudo um apelo ao desenvolvimento da memória, num ambiente de competição, em vez da estímulo vivo à inteligência, potenciador das capacidades de interacção e cooperação humanas, com respeito pela individualidade, personalidade e talentos dos alunos, sobretudo no domínio relacional e organizacional.
29.Que a televisão, meio de comunicação magnífico, esteja pejada de lixo comunicacional – anúncios, concursos e novelas cretinas, programas imbecilizantes, filmes e séries de extrema violência.
30.Que o Estado gaste muito dinheiro em empreendimentos de luxo e obras faraónicas, de duvidosa utilidade. Recursos reconhecidamente escassos, que deveriam ser usados para proteger a vida humana, a frágil vida humana, em todas as vicissitudes e tormentas que por vezes a ameaçam (doenças, acidentes, perdas). No apoio aos mais frágeis – crianças, idosos, deficientes, desempregados, doentes, menos capazes, pessoas em risco, vítimas de crimes, etc.…
31.Neste ambiente hostil à vida, os bancos e as empresas meganacionais, grandes navios dos ricos e poderosos, continuem a navegar em segurança, aumentando escandalosamente os seus lucros, à custa da exploração geral e desenfreada de pessoas e pequenas empresas, com o beneplácito do Estado.
32.Que se formem– na escola, no trabalho, na sociedade, na comunicação de massas, escravos e ignorantes em vez amantes da liberdade.
33.Que, ao nível planetário, populações inteiras sobrevivam em ambientes de guerra, fome e miséria, num colossal sofrimento evitável, que subsiste à sombra da imensa estupidez humana.
34.Que nos países desenvolvidos se desperdice riqueza e recursos naturais no fabrico, transporte, consumo e desperdício de uma infinidade de produtos supérfluos e mesmo prejudiciais à saúde e ao bem-estar das pessoas.
35.Que seja preciso matar diariamente animais em quantidades inimagináveis (que muito apreciariam viver se os deixassem), para sobrealimentar milhões de bem (mal?) nutridos.
36.Que se ignorem e desprezem os ritmos da natureza, e consequentemente os próprios bio-ritmos da vida humana, gerando destruição ambiental e destruição espiritual, em enorme escala.
37.Que desperdicemos tanto do nosso bio tempo – limitado e que pode esgotar-se a todo o tempo – em tarefas estúpidas (que podiam ser eliminadas ou tratadas por máquinas), em transportes, em esperas bestas, em atenção a pessoas que não nos interessam nada ou mensagens que não passam de lixo.
38.Que desperdicemos tão facilmente o dinheiro que tanto nos custou a ganhar (em esforço e bio tempo) em coisas que supostamente nos fariam mais felizes, mas não fazem.
39.Que brinquemos tão pouco com as crianças; em vez disso massacramo-las de regras e interditos.
40.Que, sendo tão frágeis, nos finjamos tão fortes e sabedores e tenhamos vaidade em ser superiores a outros.
41.Que a violência (real, psicológica e simbólica) seja tão comum e banal que já pouco nos importemos.
42.Que se sorria tão pouco e se abrace ainda menos. Coisas tão importantes e gratuitas (como quase todas as coisas importantes).
43.Que algum bem-estar material que se alcançou, devido sobretudo ao progresso tecnológico e científico, tenha sido acompanhado por um empobrecimento do lado emocional e relacional do seres humanos, que estão a tornar-se meras cascas, cheias de egoísmo e banalidades, consumidores compulsivos e sobretudo seres infelizes, privados dos seus laços fundamentais com a natureza e os outros, sem a profundidade interior que talvez só o sofrimento possa dar.
44.Que haja quem compre e quem venda sexo.
45.Que haja quem viole, fira e mate, quase sempre por motivos fúteis.
46.Que apesar de tudo, a vida prossiga, fenecendo aqui, renascendo ali, tremendamente bela, tremendamente frágil, misteriosa, sempre grandiosa. Ámen.