Friday, November 10, 2006
Sobre Deus
O assunto “Deus” não pode deixar de estar presente num ser humano pensante, porque por um lado, a existência é um facto (ao invés da inexistência) e porque cada um de nós participa dela e sendo racional, pode pensá-la.
Temos (os humanos) uma mente reflexiva, que ao longo do tempo e das civilizações criou visões de mundo e visões explicativas do mundo. Criou deuses e religiões. Por fim, criou crenças na inexistência de qualquer suporte sobrenatural para a existência (ateísmo). Alguns pensam que nada se pode saber sobre isso (agnósticos). Há ainda os que acreditam que a criação demonstra a existência do Criador, mas, baseando-se numa base racional, excluem a “verdade revelada” das várias religiões.
Acredito que as formas primitivas de religião, entendidas como explicações para a existência, cujas inúmeras manifestações eram frequentemente incompreensíveis pela razão, nasceram da necessidade de dar sentido aos fenómenos da vida e da natureza tão incompreendidos.
Seriam manifestações da “mente mágica” que tende a imaginar ligações ocultas onde nada existe.
Mas cedo, em todos os povos, fruto do gregarismo do ser humano e da sua característica visão hierarquizada dos grupos, presente em muitas espécies de mamíferos (primatas, lobos, etc.), os líderes de grupo ou de clã (os machos alfa) perceberam que a visão religiosa/mágica, devidamente manipulada, era um poderoso aliado da hierarquia, fortalecendo os dominadores e ajudando a submeter os restantes. Um factor de obtenção e/ou de preservação do poder. Também um importante factor de coesão grupal (pela comunhão de ideias, crenças e rituais).
Por isso as religiões foram ganhando, em todas as civilizações, um lugar de primeiro plano na vida das comunidades, ao lado da política e com ela entrelaçadas (o que é ainda evidente, por exemplo, nos povos islâmicos).
Em muitíssimos povos, o líder era simultaneamente um líder político e um líder religioso, quando não um semi-deus.
Em resumo, existe na natureza humana uma predisposição natural para encontrar explicações e nexos para os fenómenos que presencia, numa visão coesa. As religiões deram respostas pré-fabricadas a esse anseio, tranquilizando as mentes. Mas tiveram sucesso, sobretudo, enquanto constituíram um poderoso aliado do poder político dominante.
Com o Iluminismo (Séc. XVIII), a mente racional ganhou terreno, oferecendo cada vez mais território à explicação racional dos fenómenos e menos às religiões. Nasceram as bases do ateísmo, do materialismo, do nazismo e do comunismo. Mas também do desenvolvimento científico e técnico acelerado, diria mesmo vertiginoso, do Séc. XX.
Paradoxalmente, foi o fundamentalismo religioso (islâmico) a protagonizar o primeiro grande acontecimento do Séc. XXI – o nine/eleven, o derrube da torres gémeas de Nova Iorque, em 11.9.2001.
A história humana é demasiado pródiga em desastres e mortandades inspiradas por visões de mundo fortemente religiosas (cristãs, islâmicas e outras), para que isso constituísse novidade. Mas não deixa de ser irónico.
Entretanto, o desenvolvimento científico e técnico veio trazer um poder acrescido aos Estados, tão poderosos com esses novos meios, que desenvolveram guerras e destruições a uma escala nunca vista. E deixaram de lado o velho aliado, cada vez mais atrofiado – o pensamento religioso.
Surgiram também novos aliados da coesão social – a comunicação social e a massificação educacional. Elas permitiram forjar gerações de cidadãos normalizados por um fundo comum de visão de mundo, que interessa e é muito mais eficaz à manutenção das instituições políticas do que o velho aliado – a religião.
A riqueza das nações, o bem-estar dos cidadãos, o progresso da medicina, a difusão da educação e da cultura geral, em particular nos países mais desenvolvidos, elevou muito os níveis de conforto, qualidade de vida e longevidade dos povos. E foram as ciências e as tecnologias e não a religião, os responsáveis por tudo isso.
Sem ignorar que também o progresso tem os seus efeitos perversos, e não são poucos, há que reconhecer que ele seduziu e seduz as gerações do presente, deixando um lugar muito pequeno para a religião e por acréscimo para a ideia de Deus.
E no entanto, a velha questão não morreu. A ideia de Deus merece reflexão.
Existe ou existiu Deus? Se sim, porque não interveio ou intervém nos assuntos humanos, impedindo o imenso caudal de sofrimento aparentemente inútil e injusto que cada dia acontece?
Ultrapassada a utilidade tradicional das religiões como factor político, a questão metafísica continua.
O universo conhecido tem complexidade infinita, dinâmica imparável, vida multifacetada, beleza e sentimentos. Ocupa um lugar imenso onde poderia existir coisa nenhuma. E cada um de nós é parte integrante desse imenso existente dinâmico. Uma energia poderosíssima move-se e faz mover incessantemente o universo, manifestando-se de diversíssimas maneiras – luz, calor, radiações, gravidade, elecromagnetismo, energia sexual, pensamento, emoções, vida, enfim… (e tudo o que a ciência ainda desconhece, por enquanto).
Isto, é só por si prova bastante de que somos parte de algo avassaladoramente complexo, belo, inteligente, vivo e sensível.
Por mim, chamo-lhe Deus.
Deus é tudo o que existe – desde a natureza bruta de uma pedra milenar ao melhor vislumbre do mais sensível dos poetas.
Está presente um tudo, até no que, visto pela nossa limitada visão de humanos, nos parece mau, cruel, terrífico ou inexplicável. Porque cada fragmento do que acontece é uma forma particular da energia divina. Nada se ganha ou se perde. Tudo muda simplesmente de lugar ou de forma. Não posso dizer que a minha mão direita rouba o anel da esquerda, porque ele simplesmente era e continua meu. Toda a matéria que me constitui, cada átomo, sempre existiu, em permanente rodopio, associado a milhões de formas, participando de vidas e de mortes (aparentes, pois na verdade nem um jamais sucumbiu ou virá a sucumbir).
Quando eu morrer, cada átomo seguirá a sua interminável viagem. Somente a minha personalidade, o meu ego, se perderá para sempre. O que aliás não tem a menor importância – ele é uma ilusão (um efeito ilusório criado pela energia – Deus ) que somente tem uma função prática, como guia nesta vida e é totalmente irrelevante logo que esta termine.
Deus é pois uma energia infinita, poderossíssima e ao mesmo tempo ultra-sensível, de que fazemos parte.
Em nós estão presentes, em pequeno grau, muitíssimos aspectos da energia, desde os elementos aparentemente rudes – átomos de ferro, níquel, carbono, oxigénio e hidrogénio, etc., até aos aspectos mentais capazes de elevadas perfomances – linguagem (do palavrão ao poema), memória (pessoal e colectiva), imaginação (desde a asneira ao génio) sensações e sentimentos (de indefiníveis a paixões ardentes).
Muitos desses aspectos estão presentes por todo o universo, outros são comuns com o reino mineral, outros com os reinos vegetal e mineral. Mas outros são especificamente humanos.
Nalguns aspectos somos animais selvagens, noutros animais domesticados.
Somos também capazes de grande criatividade e de grande estupidez. De altruísmo, de inveja e egoísmo. De amor e de ódio. De alegria e de tristeza.
Tudo isso são manifestações parcelares da energia de que somos feitos e de que tudo é feito. Há um parentesco intrínseco entre tudo o que existe. (Por isso a mente que guia o que escrevo e o corpo que a suporta são formados essencialmente por água – coisa aparentemente tão banal).
Nada é banal. Nada é inútil ou descabido, nem mesmo o sofrimento e a morte. Nem a pedra do caminho, nem o vírus fatal. Nem a mosca incómoda nem o tsunami devastador. Porque todos são aspectos da complexíssima vida de Deus, de que somos parte.
O que em nós é aparentemente rude, são átomos de Deus.
O que em nós pensa, são pensamentos de Deus.
O que em nós sente, são sentimentos de Deus (é o seu coração, enfim).
Talvez cada um possa escolher um pouco, com o seu modo próprio de ser e de sentir, para que Deus manifeste mais aspectos sensíveis e belos e menos aspectos feios e duros da sua poderosa natureza.
Como? Sendo cada vez mais humanos (permitindo que através de nós se manifeste o que Deus tem de melhor – amor incondicional, benevolência, compaixão por todos os seres sencientes).
A pergunta Deus existe? é tão absurda como eu existo?
À pergunta o que é Deus? Respondo : absolutamente tudo.
Temos (os humanos) uma mente reflexiva, que ao longo do tempo e das civilizações criou visões de mundo e visões explicativas do mundo. Criou deuses e religiões. Por fim, criou crenças na inexistência de qualquer suporte sobrenatural para a existência (ateísmo). Alguns pensam que nada se pode saber sobre isso (agnósticos). Há ainda os que acreditam que a criação demonstra a existência do Criador, mas, baseando-se numa base racional, excluem a “verdade revelada” das várias religiões.
Acredito que as formas primitivas de religião, entendidas como explicações para a existência, cujas inúmeras manifestações eram frequentemente incompreensíveis pela razão, nasceram da necessidade de dar sentido aos fenómenos da vida e da natureza tão incompreendidos.
Seriam manifestações da “mente mágica” que tende a imaginar ligações ocultas onde nada existe.
Mas cedo, em todos os povos, fruto do gregarismo do ser humano e da sua característica visão hierarquizada dos grupos, presente em muitas espécies de mamíferos (primatas, lobos, etc.), os líderes de grupo ou de clã (os machos alfa) perceberam que a visão religiosa/mágica, devidamente manipulada, era um poderoso aliado da hierarquia, fortalecendo os dominadores e ajudando a submeter os restantes. Um factor de obtenção e/ou de preservação do poder. Também um importante factor de coesão grupal (pela comunhão de ideias, crenças e rituais).
Por isso as religiões foram ganhando, em todas as civilizações, um lugar de primeiro plano na vida das comunidades, ao lado da política e com ela entrelaçadas (o que é ainda evidente, por exemplo, nos povos islâmicos).
Em muitíssimos povos, o líder era simultaneamente um líder político e um líder religioso, quando não um semi-deus.
Em resumo, existe na natureza humana uma predisposição natural para encontrar explicações e nexos para os fenómenos que presencia, numa visão coesa. As religiões deram respostas pré-fabricadas a esse anseio, tranquilizando as mentes. Mas tiveram sucesso, sobretudo, enquanto constituíram um poderoso aliado do poder político dominante.
Com o Iluminismo (Séc. XVIII), a mente racional ganhou terreno, oferecendo cada vez mais território à explicação racional dos fenómenos e menos às religiões. Nasceram as bases do ateísmo, do materialismo, do nazismo e do comunismo. Mas também do desenvolvimento científico e técnico acelerado, diria mesmo vertiginoso, do Séc. XX.
Paradoxalmente, foi o fundamentalismo religioso (islâmico) a protagonizar o primeiro grande acontecimento do Séc. XXI – o nine/eleven, o derrube da torres gémeas de Nova Iorque, em 11.9.2001.
A história humana é demasiado pródiga em desastres e mortandades inspiradas por visões de mundo fortemente religiosas (cristãs, islâmicas e outras), para que isso constituísse novidade. Mas não deixa de ser irónico.
Entretanto, o desenvolvimento científico e técnico veio trazer um poder acrescido aos Estados, tão poderosos com esses novos meios, que desenvolveram guerras e destruições a uma escala nunca vista. E deixaram de lado o velho aliado, cada vez mais atrofiado – o pensamento religioso.
Surgiram também novos aliados da coesão social – a comunicação social e a massificação educacional. Elas permitiram forjar gerações de cidadãos normalizados por um fundo comum de visão de mundo, que interessa e é muito mais eficaz à manutenção das instituições políticas do que o velho aliado – a religião.
A riqueza das nações, o bem-estar dos cidadãos, o progresso da medicina, a difusão da educação e da cultura geral, em particular nos países mais desenvolvidos, elevou muito os níveis de conforto, qualidade de vida e longevidade dos povos. E foram as ciências e as tecnologias e não a religião, os responsáveis por tudo isso.
Sem ignorar que também o progresso tem os seus efeitos perversos, e não são poucos, há que reconhecer que ele seduziu e seduz as gerações do presente, deixando um lugar muito pequeno para a religião e por acréscimo para a ideia de Deus.
E no entanto, a velha questão não morreu. A ideia de Deus merece reflexão.
Existe ou existiu Deus? Se sim, porque não interveio ou intervém nos assuntos humanos, impedindo o imenso caudal de sofrimento aparentemente inútil e injusto que cada dia acontece?
Ultrapassada a utilidade tradicional das religiões como factor político, a questão metafísica continua.
O universo conhecido tem complexidade infinita, dinâmica imparável, vida multifacetada, beleza e sentimentos. Ocupa um lugar imenso onde poderia existir coisa nenhuma. E cada um de nós é parte integrante desse imenso existente dinâmico. Uma energia poderosíssima move-se e faz mover incessantemente o universo, manifestando-se de diversíssimas maneiras – luz, calor, radiações, gravidade, elecromagnetismo, energia sexual, pensamento, emoções, vida, enfim… (e tudo o que a ciência ainda desconhece, por enquanto).
Isto, é só por si prova bastante de que somos parte de algo avassaladoramente complexo, belo, inteligente, vivo e sensível.
Por mim, chamo-lhe Deus.
Deus é tudo o que existe – desde a natureza bruta de uma pedra milenar ao melhor vislumbre do mais sensível dos poetas.
Está presente um tudo, até no que, visto pela nossa limitada visão de humanos, nos parece mau, cruel, terrífico ou inexplicável. Porque cada fragmento do que acontece é uma forma particular da energia divina. Nada se ganha ou se perde. Tudo muda simplesmente de lugar ou de forma. Não posso dizer que a minha mão direita rouba o anel da esquerda, porque ele simplesmente era e continua meu. Toda a matéria que me constitui, cada átomo, sempre existiu, em permanente rodopio, associado a milhões de formas, participando de vidas e de mortes (aparentes, pois na verdade nem um jamais sucumbiu ou virá a sucumbir).
Quando eu morrer, cada átomo seguirá a sua interminável viagem. Somente a minha personalidade, o meu ego, se perderá para sempre. O que aliás não tem a menor importância – ele é uma ilusão (um efeito ilusório criado pela energia – Deus ) que somente tem uma função prática, como guia nesta vida e é totalmente irrelevante logo que esta termine.
Deus é pois uma energia infinita, poderossíssima e ao mesmo tempo ultra-sensível, de que fazemos parte.
Em nós estão presentes, em pequeno grau, muitíssimos aspectos da energia, desde os elementos aparentemente rudes – átomos de ferro, níquel, carbono, oxigénio e hidrogénio, etc., até aos aspectos mentais capazes de elevadas perfomances – linguagem (do palavrão ao poema), memória (pessoal e colectiva), imaginação (desde a asneira ao génio) sensações e sentimentos (de indefiníveis a paixões ardentes).
Muitos desses aspectos estão presentes por todo o universo, outros são comuns com o reino mineral, outros com os reinos vegetal e mineral. Mas outros são especificamente humanos.
Nalguns aspectos somos animais selvagens, noutros animais domesticados.
Somos também capazes de grande criatividade e de grande estupidez. De altruísmo, de inveja e egoísmo. De amor e de ódio. De alegria e de tristeza.
Tudo isso são manifestações parcelares da energia de que somos feitos e de que tudo é feito. Há um parentesco intrínseco entre tudo o que existe. (Por isso a mente que guia o que escrevo e o corpo que a suporta são formados essencialmente por água – coisa aparentemente tão banal).
Nada é banal. Nada é inútil ou descabido, nem mesmo o sofrimento e a morte. Nem a pedra do caminho, nem o vírus fatal. Nem a mosca incómoda nem o tsunami devastador. Porque todos são aspectos da complexíssima vida de Deus, de que somos parte.
O que em nós é aparentemente rude, são átomos de Deus.
O que em nós pensa, são pensamentos de Deus.
O que em nós sente, são sentimentos de Deus (é o seu coração, enfim).
Talvez cada um possa escolher um pouco, com o seu modo próprio de ser e de sentir, para que Deus manifeste mais aspectos sensíveis e belos e menos aspectos feios e duros da sua poderosa natureza.
Como? Sendo cada vez mais humanos (permitindo que através de nós se manifeste o que Deus tem de melhor – amor incondicional, benevolência, compaixão por todos os seres sencientes).
A pergunta Deus existe? é tão absurda como eu existo?
À pergunta o que é Deus? Respondo : absolutamente tudo.